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Projeto Reativar: Agroecologias e Interculturalidades

Ancorado nas ideias de autonomia das unidades domésticas; segurança alimentar e nutricional e promoção da diversidade cultural e ecológica, este projeto intenta, por meio de uma ação conjunta envolvendo professores e alunos do Centro de Desenvolvimento Agroecológico EA/UFG (CDA), do Núcleo de História Ambiental e Interculturalidades NUHAI/UFG, do Curso de Educacao Intercultural/UFG e de moradores de setores periféricos da grande Goiânia, criar as condições necessária para que tais moradores, na maioria migrantes, possam reativar suas “memórias bioculturais” recriando assim suas práticas agroecológicas tradicionais em seus espaços atuais de moradia.

Dona Pita explana sobre propriedades medicinais das plantas que possui em casa
Dona Pita, moradora da Região Noroeste de Goiânia, descreve as funções curativas e alimentícias das plantas de seu quintal

 

A história da formação da região de Goiânia e seu entorno, a qual se denomina Grande Goiânia é indissociável de um amplo e intrincado processo de migração a partir do qual chegaram (e chegam) milhares de migrantes, oriundos principalmente das regiões norte e nordeste do Brasil, quase sempre deslocados devido à ocorrência de variados tipos de impactos socioambientais negativos.

 Evidenciamos, entretanto, que os problemas decorrentes desse enorme fluxo de migração têm sido historicamente analisados de maneira superficial, o que tem originado dois tipos de simplificações. O primeiro é o de tomar as regiões periféricas da Grande Goiânia como sendo simplesmente um espaço de recepção para populações deslocadas, ou seja, uma grande periferia apropriada ao assentamento de pessoas malogradas em seus lugares de origem; e o segundo, consiste em querer achar respostas e soluções para os impactos socioambientais decorrentes de tal migração olhando somente para as questões ligadas a infraestrutura (geração de energia, o sistema de transporte, telecomunicações, saneamento, instituições educacionais, de segurança pública, de saúde, entre outros).

Pois bem, em nossas abordagens, passamos a substituir tais simplificações por duas importantes percepções. Primeiro a de que tais espaços periféricos não devem ser vistos como simplesmente uma espécie de etapa final de histórias de impactos socioambientais que começam em zonas rurais e que culminam em fluxos migratórios para as periferias de grandes centros urbanos. Antes, devem ser vistos com fronteiras de encontros de saberes, e, por conseguinte, lugares de emergência de novos sistemas complexos adaptativos, o que os tornam espaços interculturais de grande potencia criativa e de adaptação às condições adversas criadas no, e pelo Sistema Mundo Capitalista; e segundo, que os impactos socioambientais que ora afetam tal população migrante somente poderão ser eficazmente mitigados se, para além da atenção aos problemas de infraestrutura, também forem criadas ferramentas adequadas capazes de substituir as virulentas práticas de negação, discriminação, racialização e inferiorização dos múltiplos saberes do migrante por outras que valorizem a circulação e o uso desses saberes com o fim de propiciar entre essas comunidades a reativação de suas memórias e práticas bioculturais proporcionando a recriação de redes de reciprocidade voltadas para alternativas de desenvolvimento humano com base em modelos do tipo socioeconomias solidárias. Essas memórias bioculturais a que nos referimos fazem parte de um complexo arsenal de estratégias, historicamente construídas pelas populações humanas, voltadas para produção de sistemas adaptativos às múltiplas e mutantes condições impostas pela biosfera.

Assim, um dos interesses centrais da agroecologia, para este projeto, é o do fortalecimento do diálogo de saberes e também, como nos dizem TOLEDO e BARRERA-BASSOLS (2015),

(...) Mostrar a cegueira da modernidade e a sua incapacidade de recordar, o que, consequentemente, torna necessário volver o olhar para os povos originários, tradicionais ou indígenas, em cujos modos de vida – materiais e imateriais – é possível encontrar a memória da espécie. E é nessa memória que está boa parte das chaves para decifrar, compreender e superar a crise dessa modernidade, ao reconhecer outras formas de conviver entre nós e com os outros – entre os modernos e os pré-modernos e entre os humanos e os não humanos, isto é, a natureza ou as culturalezas.

A Agroecologia busca repensar não só a produção, também, os atores envolvidos, sua inserção nos territórios, a relação do homem com o ambiente, o redesenho das unidades produtivas, ou seja, trazer para o agroecossistema as relações que integram os ecossistemas.  Necessitando assim, de uma abordagem sistémica, que demanda varias formações, com visões integradas e co-dependentes. Justificando a necessidade de equipe multidisciplinar que integram o saber científico, saber tradicional, assim como o dialogo entre os saberes.

Nesse contexto, ressalta-se a transição como um processo considerado difícil e demorado uma vez que necessita incorporação de novos valores social e ambiental e que muitas vezes esbarram na necessidade do sustento familiar (Marin, 2009), fatos que justificam o elevado número de agricultores que demonstram interesse na transição agroecológica com o número de agricultores que chegam na verificação legal, ou seja, baixo número de credenciados ao Ministério da Agricultura como orgânicos, com 76 registros no estado de Goiás em 31 de dezembro de 2016 (MAPA, 2017).

Faz-se importante iniciativas de pesquisa e extensão que busquem não só desenvolver tecnologias que reduza o período de transição/conversão, assim como a valoração dos serviço que esses agricultores estão prestando a comunidade, região, ambiente, ecossistemas, além de aproximar universidade-sociedade.  

Propõe-se realização de atividades de capacitação no Centro de Desenvolvimento Agroecológico EA/UFG (CDA), que é um espaço de práticas das disciplinas de Agroecologia, Agricultura Urbana e Periurbana entre outras disciplinas, pesquisa e extensão. Possui aproximadamente quatro hectares de área, e, objetiva criar e estabelecer um espaço de formação em Agroecologia, Produção Orgânica e Soberania Alimentar e Nutricional, através do resgate, multiplicação, usos e cultura associada aos saberes e sabores em sementes e propágulos tradicionais (crioulas), plantas medicinais, plantas alimentícias não convencionais, plantas arbóreas e arvores nativas do Cerrado, e a biocultura associada no rural e urbano.

Acredita-se que a integração entre sociedade e universidade e estudantes de diferentes formação colaborarão significativamente para capacitação em produção e interculturalidade que o espaço propõe. 

O curso de Educação Intercultural conta com participação de 300 discentes de 24 povos indígenas da Região Araguaia/Tocantins. Ao terceiro ano do curso os discentes iniciam suas pesquisas para realizar os projetos extraescolares. Estes devem ter como um de seus princípios a sustentabilidade. O tema contextual que será desenvolvido pelos discentes indígenas devera ser escolhido de forma coletiva junto a comunidade indígena da qual faz parte o discente.

Desse modo, o conhecimento produzido por meia da pesquisa do projeto extraescolar devera ter seu caráter de pertinência garantido ao ter seus resultados aplicados na pratica na comunidade do discente pesquisador.

Um dos temas mais destacados que tem sido escolhido reiteradas vezes por parte das comunidades indígenas tem sido o tema da alimentação tradicional. O abandono das antigas praticas agrícolas por parte da maioria doa povos indígenas tem tido como resultado imediato a entrada da comida industrializadas nas aldeias e como resultado de médio e longo alcance observa-se o enfraquecimento da saúde indígena por meio de enfermidades como o diabetes, a pressão alta e doenças cardiovasculares.

A possibilidade de recuperar os saberes ancestrais em relação as praticas agrícolas tem sido muito importante para os povos indígenas.  Algumas ações resultantes dessas pesquisas tem sido, por exemplo, a troca da comida industrializada por alimentos produzidos pelos próprios indígenas na merenda escolar das escolas indígenas.